Peças — desenho paramétrico
Peças é o mundo de projeto de uma peça: você desenha um perfil 2D (o *esboço*), o solver o deixa totalmente restrito, você o transforma num sólido 3D com uma pilha de operações (extrusão, revolução, rebaixo, filete, chanfro) e salva o resultado na sua biblioteca. De lá a peça vira uma ficha técnica para o chão de fábrica e um componente que entra na bancada como qualquer outro.
É o quarto modo da bancada (Montagem · Render · Peças · Código). Abra por Peças no cabeçalho da bancada — aí a peça já nasce ligada àquela bancada e o botão "Inserir na bancada" a coloca direto — ou pela rota /sketch (avulsa, sem bancada). Tudo em milímetros; ângulos em graus na tela.
O fluxo em uma frase
Desenhar o contorno → Auto-constrain (Totalmente restrito) → Sólido 3D (dar altura/revolucionar) → nomear + classe de tolerância → Salvar peça → Ficha técnica / Inserir na bancada.
1. O esboço (2D)
O esboço começa com um retângulo padrão já desenhado, pronto para virar sólido. A primeira ferramenta de desenho que você usar substitui esse retângulo intocado; a partir daí, cada ferramenta adiciona um contorno.
Ferramentas de desenho (barra lateral esquerda)
- Selecionar — a ferramenta padrão (
rail-sketch-tool-select-btn). Clique numa forma para selecioná-la e arraste seus vértices/grips; arrastar no vazio não desenha nada. Esc limpa a seleção; Del remove o contorno selecionado. As ferramentas de desenho são de um uso: ao completar uma forma (arraste do retângulo, fechar a polilinha, soltar o círculo, confirmar o polígono, colocar o arco) a barra volta sozinha para Selecionar — nenhum arraste acidental vira geometria. - Linha — polilinha fechada: clique cada vértice e feche no primeiro ponto. Vira um contorno
polyde N lados (um perfil qualquer, um L, um T). - Retângulo — clique-arraste um retângulo. É o contorno com o melhor caminho de restrição (especialista treinado).
- Círculo — clique-arraste do centro ao raio. Sozinho vira um disco; dentro de outro contorno vira um furo (veja multi-contorno).
- Arco — em um contorno fechado, arqueia uma aresta pelo grip do ponto médio (curvatura). Bojo ~0 volta a ser reta.
- Polígono — polígono regular: clique o centro, afaste para dimensionar. Um HUD numérico define N (3–12, padrão 6) e alterna inscrito (o valor é o circunraio, cursor num vértice) / circunscrito (o valor é a distância entre faces, o que o serralheiro lê numa sextavada com a chave). Emite um contorno
polycom metadadosregularpara re-editar e cotar.
Além disso, na barra do palco: grade (sketch-grid-toggle), snap (sketch-snap-toggle), ref. da face (sketch-face-ref-toggle, só aparece quando o esboço se apoia num sólido anterior), desfazer/refazer (sketch-undo-btn/sketch-redo-btn, também Ctrl/Cmd+Z e Ctrl/Cmd+Shift+Z) e redefinir (sketch-reset-btn, volta ao retângulo padrão sob confirmação).
Grade e snap
A grade dá referência visual; o snap prende cursor e vértices à grade e a pontos notáveis (cantos, centro) enquanto você desenha. Desenhe "no olho" e o snap fecha os milímetros — ligue/desligue quando precisar de um valor livre.
Cota (dimensão) com tolerância ±
A ferramenta Cota transforma uma medida "como desenhada" numa cota nomeada e editável: escolha a aresta/diâmetro e digite o valor nominal. Numa cota você pode anexar uma tolerância ± (por exemplo Ø8 ±0,02) — ela sobe para a ficha na tabela Cotas e tolerâncias, sobrepondo a tolerância geral ISO 2768 só naquela cota. Cotas sem tolerância própria herdam a geral. As cotas são a ponte entre o desenho e o documento: nada é digitado à mão na ficha, tudo deriva daqui.
2. Multi-região — contenção é furo, separado é região
Um esboço aceita vários contornos agrupados em regiões. A regra é geométrica e simples:
- Um contorno que não está contido em nenhum outro é o externo de uma região (uma forma sólida).
- Um contorno inteiramente contido dentro de outro é um furo (vazado) nesse externo. Um círculo dentro de um retângulo = chapa furada; uma sextavada dentro de um retângulo = furo hexagonal real.
- Contornos separados (lado a lado) são regiões independentes — um retângulo e um círculo desenhados um ao lado do outro viram duas peças no mesmo esboço. O pad extruda e une todas as regiões; o volume é a soma (sem sobreposição).
- Um furo dentro de um furo (contido em dois níveis) volta a ser uma ilha sólida — a mesma regra par/ímpar do FreeCAD: a união das regiões reproduz o preenchimento.
Só é erro quando dois contornos se cruzam (sobreposição parcial): o painel avisa (sketch-contour-error, "contornos se cruzam"). Contornos apenas separados não são mais erro.
Assim um furo passante é só um círculo (ou polígono) desenhado dentro do externo — sem operação separada. Cada furo carrega opcionalmente sua usinagem (veja abaixo). Um contorno pode ser removido pela árvore, que resume o esboço como "N regiões · M contornos" quando há mais de uma região.
Limites da v1: revolve exige uma única região (uma peça torneada tem um só meridiano — multi-região dá erro atribuído à operação); fillet/chanfro também são de região única (quebra de aresta 3D não faz sentido entre prismas separados). A cota/tolerância e os especialistas treinados seguem operando por região; em multi-região as cotas ganham prefixo R1-, R2- na ficha.
Usinagem do furo (anotação)
Quando um furo circular está ativo, aparece o seletor "Usinagem do furo" (sketch-hole-machining-*):
- Simples — furo perfurado (padrão).
- Roscado — designação métrica pré-selecionada pelo Ø perfurado (M6, M8×1,25…), com família alternável: métrica grossa/fina, polegada UNC/UNF, fuso Tr (trapezoidal) e quadrada (Ø×passo livre). Ex.: Furo Ø17 → rosca Tr20×4.
- Escareado — ângulo (padrão 90°) + Ø maior.
- Rebaixado — Ø do rebaixo + profundidade.
São anotações de nível de especificação: a geometria continua sendo o cilindro perfurado; a rosca/escareado/rebaixo aparecem como *call-out* na ficha e no desenho, não como sólido modelado. (Rosca externa em eixo torneado — o fuso de verdade — ainda não tem superfície; hoje Tr/quadrada valem para furo interno.)
3. Restrições e graus de liberdade
Um esboço tem graus de liberdade (DoF): quanto o desenho ainda pode "escorregar". O badge sketch-dof-badge mostra o número ao vivo — âmbar quando sub-restrito, verde "Totalmente restrito" quando DoF ≤ 0 sem conflito, vermelho num conflito. Salvar e a ficha exigem DoF 0: uma peça só é fabricável quando totalmente definida.
O botão herói Auto-constrain (sketch-auto-constrain-btn) resolve isso de uma vez. Duas rotas, sempre verificadas pelo motor gcs2d no dispositivo (sem nuvem):
- Especialistas treinados (retângulo; chapa com um furo circular) — produzem exatamente a intenção de um projetista: horizontal/vertical + comprimentos nomeados. É a melhor experiência, roda offline, cada resposta é conferida pela geometria antes de aceita.
- Determinístico "restrito com intenção" para o resto (polígonos livres, L, T, multi-furo): cada aresta alinhada ganha H/V e um comprimento nomeado entre seus próprios extremos, cada troca verificada pelo solver (DoF 0, sem redundância). O chip lê "Restrito com intenção (H/V + comprimentos)" quando engatou, senão "Restrito como desenhado" (fixa coordenadas — correto, porém menos editável). O caminho determinístico é a rede de segurança e nunca é removido.
Quando você prefere ir uma restrição por vez, o botão Sugerir próxima (sketch-suggest-next-btn) propõe a próxima restrição sozinha: num contorno que roteia para um especialista treinado ele roda um passo do decodificador (a mesma rede, parada após uma ação) e mostra uma dica em português — por exemplo "Tornar a aresta inferior horizontal" ou "Fixar a largura em 40 mm" — destacando a aresta/vértice/furo afetado no canvas. Aplicar aplica só aquela restrição (conferida pelo motor, o badge de DoF desce um passo); Dispensar descarta a sugestão. No caminho determinístico o botão sugere a primeira restrição do construtor ("sugestão do construtor") e Aplicar restringe o contorno inteiro de uma vez.
Restrições manuais (Horizontal · Vertical · Perpendicular · Coincidente)
Quando você quer restringir à mão, a barra tem as ferramentas de restrição. Com Horizontal ou Vertical ativa, passe o mouse sobre uma aresta do contorno (ela acende) e clique: a aresta fica reta na hora — o solver move o vértice livre para satisfazer a restrição (uma aresta inclinada 5° salta para horizontal, o payoff visível). Perpendicular é em dois cliques: a primeira aresta fica marcada em verde, a segunda aresta adjacente fecha o ângulo de 90°; Esc cancela o par. A ferramenta fica ativa após cada aplicação (restrições se repetem naturalmente); Esc volta a Selecionar.
Cada restrição manual é verificada pelo motor antes de valer: se ela ficaria redundante ou conflitante (por exemplo repetir Horizontal na mesma aresta), é rejeitada com um aviso e nada muda; se limpa, ela entra na lista Restrições com a etiqueta Manual e o seu × para remover, o badge de DoF desce e a geometria já sai restringida. As restrições manuais acompanham o contorno (persistem no rascunho e no salvamento, como as cotas). No retângulo padrão (especialista treinado) elas roteiam pelo vocabulário de tokens (h0/v1/…); nos demais contornos entram no conjunto como desenhado.
Coincidente é honesta: num contorno fechado os vértices já são unidos automaticamente pelo solver, então a ferramenta apenas explica isso ao clicar num vértice (não há junção pendente a fazer na v1).
O especialista on-device é um diferencial: "solver e especialista rodam no dispositivo, sem nuvem, sem espera".
Cantos arredondados (fillet): quando um arco encontra duas paredes retas e foi desenhado tangente a elas, o construtor troca a fixação de forma do arco por uma restrição de tangência + raio. Assim, ao editar a Cota do raio do fillet, os pontos de tangência deslizam pelas paredes e o canto continua tangente — o raio na ficha é uma cota de tangência real, não um arco congelado.
4. O corpo (3D) — a árvore de operações
Alterne para Sólido 3D (sketch-mode-3d-btn) e o esboço vira volume. O corpo é um histórico ordenado de operações (sketch-feature-tree), cada uma com atribuição de erro própria — como um CAD paramétrico de verdade. Adicione operações por sketch-tree-add-btn.
Planos datum (onde o esboço vive)
Cada esboço fica num plano datum. Há as seis orientações alinhadas aos eixos, e — o passo que fecha o CAD — esboço na face: com o pick de face (sketch-face-pick-toggle) você clica uma face do sólido 3D e desenha um novo esboço em cima dela (sketch-tree-add-sketch-btn). Assim se constrói uma peça em camadas: base → face → recurso.
Quando o esboço se apoia num sólido anterior, a ref. da face (sketch-face-ref-toggle, ligada por padrão) desenha o contorno da face onde o esboço vive como um traçado tracejado ciano no canvas 2D, com ímã nos vértices, nos meios de aresta e no centro da face (o FreeCAD faz isso à mão, importando geometria externa; aqui é automático). Assim você prende um furo no centro da face ou alinha uma aresta ao contorno existente sem digitar coordenada. O ímã da referência tem prioridade sobre a grade. No primeiro segmento (sem sólido anterior) não há referência e o botão fica oculto.
Operações base
- Pad (extrusão) — dá altura a um contorno fechado (
sketch-tree-thickness-input). O caminho mais direto de perfil → volume. - Revolução — gira o perfil em torno de um eixo por um ângulo (
sketch-tree-angle-input). É a peça de torno: flanges, buchas, eixos. Um corpo revolucionado também expõe um eixo de rotação quando entra na bancada (gira 1:1 com o eixo/engrenagem acoplado). - Pocket (rebaixo/bolsão) — remove material de um contorno numa profundidade (
sketch-tree-depth-input) ou passante (sketch-tree-pocket-through).
Modificadores globais
- Furos — círculos/polígonos internos já são furos; a árvore também lista e edita cada furo (posição X/Y, Ø, usinagem).
- Filete — arredonda arestas por um raio (
sketch-tree-fillet-radius-input). - Chanfro — quebra arestas por um tamanho (
sketch-tree-chamfer-size-input).
Fora do v1: planos datum inclinados arbitrários, filete por aresta individual, GD&T. Filete/chanfro são globais.
Aparência (material + textura)
O Material (sketch-part-material-select) escolhe a densidade (que alimenta o peso) e também o acabamento visual: madeira, aço/inox/alumínio (metal escovado) e afins ganham uma textura procedural aplicada por posição no espaço (mm), então ela cai certo mesmo na peça sem coordenadas de UV. O campo Tamanho da textura (mm) (sketch-part-texture-tile) ajusta ao vivo a distância de repetição do padrão — menor = mais fino, maior = mais grosso. É só pré-visualização (não altera peso nem ficha).
5. Biblioteca — salvar, importar, atualizar
Com a peça totalmente restrita, dê um nome (sketch-body-name-input), escolha a classe de tolerância (fina/média/grossa → ISO 2768) e Salvar peça (sketch-body-save-btn). A peça vai para Minhas peças (sketch-body-own); há também as seeds da plataforma (curadas, legíveis por qualquer usuário logado).
- Importar (
sketch-body-import-btn-*) traz uma peça (sua ou da plataforma) para a sua biblioteca como cópia integral — leva todo o histórico de features, com procedência registrada (de onde veio). - Atualizar da biblioteca — opt-in: você verifica se a origem ficou mais nova e re-copia só a cópia da biblioteca. Instâncias já colocadas numa bancada não mudam (elas carregam suas próprias features embutidas). Importar/atualizar é sempre explícito e reversível.
Salvar/ficha só ficam disponíveis logado; um esboço desenhado deslogado é preservado (autosave local) e migra para a sua conta ao entrar (sketch-body-login-link leva a /login?next=/sketch). Você nunca perde o desenho ao logar.
6. Usar na bancada
Duas pontes levam a peça salva para a montagem:
- Inserir na bancada — quando o modo Peças está ligado a uma bancada, o botão embute uma cópia integral das features da peça no código da bancada como um
statics.customPart(...)e salta para Montagem. A peça vira um componente estático de verdade: expõe uma porta rígida body (entra em soldas/apoios) e é contada por conectividade / envelope / interferência / BOM. Se for revolucionada, ganha também a porta de eixo e gira acoplada a um eixo/engrenagem. - Usar na bancada — no modo avulso (
/sketch), copia para a área de transferência uma chamadastatics.customPart(...)pronta, que você cola no Código de qualquer bancada.
A partir daí a peça segue as regras da bancada estática — veja Static workbench para junções (weld/rest/bolted) e os validadores. E a mesma peça vira documento de fabricação na Ficha técnica.
Próximos passos
- Transforme a peça salva num documento de chão de fábrica: Ficha técnica.
- Monte a peça numa estrutura: Static workbench.
- Fluxo geral da bancada e os quatro modos: Guide.